Wednesday, April 05, 2006

Reflexões Sobre o Lápis

(texto escrito para o catálogo da exposição "A Riscar Uma Ideia")

“A côté d’un crayon oublié”
-Jacques Prévert


Com o aparecimento e generalização da utilização do computador, o lápis parece ter perdido, pelo menos em parte, a sua utilidade. Mesmo os mais resistentes ao desenvolvimento da tecnologia, nos quais eu me incluo, lentamente se renderam à sua eficácia. Comentários do tipo “computadores não é comigo” deram lugar a “só uso porque tem de ser”, para acabar com “como é que eu perdia tempo a escrever rascunhos e cartas à mão?!”.

No caso da música, o processo foi idêntico. Com o desenvolvimento de software especializado em notação musical, como compositor passei a ter a possibilidade de entregar as minhas partituras com apresentação profissional, sem terem de passar pelas mãos de copistas, revisores, editores, e pelos custos que isso implica.

E, no entanto, continuo a depender irracionalmente do ancestral lápis. Pelas mais diversas razões.

A utilização do computador põe, na realidade, alguns problemas. Nem de propósito: a primeira versão deste texto encontra-se, no momento em que escrevo, em parte virtual incerta devido a um crash do meu computador. Felizmente tinha o rascunho manuscrito.

Por outro lado, com o computador não se guardam rascunhos e primeiras ideias. Na composição, muitas vezes o produto final corresponde a uma sedimentação e reciclagem de ideias prévias. Só o bloco de notas nos permite estar em permanente contacto com elas.

A música é porventura a mais abstracta das formas de arte, e como tal precisa de um suporte físico. Assim como o esculptor trabalha directamente a pedra, o compositor fica mais “próximo” das notas que o lápis vai deixando ansiosamente no papel. A representação de uma peça musical não corresponde à peça em si, ao contrário da pintura, por exemplo, em que a tela é a própria obra. A notação musical (outra arte em si) é meramente um suporte material de um universo totalmente abstracto.

A nossa relação com o lápis vem de longe. Com efeito, a primeira forma de expressão artística é feita normalmente, ainda em criança, com o lápis. E sempre me maravilhou a sua característica, quase mágica, de se poder apagar, ao contrário de uma vulgar caneta.

O lápis cumpre uma missão importante, mas ingrata. A utilização do lápis corresponde à fase do trabalho que nunca se mostra a outros. Como músico executante e compositor, sinto-me particularmente exposto ao público, e fico pouco à vontade quando assistem a ensaios, ou espreitam os meus rascunhos. Porque estes esquissos são instantâneos do meu processo criativo. Concordo com o grande compositor Edgar Varèse quando diz: “quando finalmente apresento uma peça, é um produto acabado. As minhas experiências vão para o lixo”.

Injustamente, o lápis não deixa memória, para além do registo para o qual foi utilizado. Porque o lápis materializa ideias, e ao fazê-lo, desmaterializa-se, desaparece.

Tal como o carpinteiro, quando tenho uma ideia coloco o lápis atrás da orelha, para que a ideia não me fuja enquanto a confirmo ao piano. Tal como o fumador com o cigarro, brinco com o lápis para me concentrar. Em momentos de maior entusiasmo, o lápis transforma-se em batuta de maestro e ajuda-me a dirigir uma orquestra imaginária e ouvir os sons que estou a criar.

Na realidade, nunca me tinha apercebido da sua verdadeira importância até me ter sido pedido este texto. Ao votar o lápis ao esquecimento, estamos a abandonar uma parte do universo das nossas ideias.

E um lápis esquecido tem sempre mais uma história para contar.

Outubro de 2001

2 Comments:

Blogger Sofia Borges said...

Que belas "Reflexões sobre o Lápis"!

Acho que também "dependo irracionalmente" do lápis dito de carvão e dos lápis-de-cor também. Para além da sua função habitual, ora se "transformam em batuta", ora em baqueta.


Para sublinhar os apontamentos das aulas utilizo lápis-de-cor. Nunca me habituei ao marcadores florescentes, e os lápis-de-cor têm um maior número de possibilidades, entre as quais "a característica, quase mágica, de se poder apagar".

E para as aulas levo um conjunto de 12 lápis-de-cor, aliás, faço questão de que sejam 12: é que numa aula de música este número permite uma série de analogias... não vão os professores pensar que passo as aulas a fazer desenhos.

Saudações, continuação de um bom trabalho e se não nos vir-mos antes:
Feliz Natal!!

Sofia.

12:17 AM  
Anonymous Pedro said...

O lápis é mesmo insuperável. No processo de edição de um livro, apesar dos computadores, tudo passa pelo papel, e muitos revisores deixam suas marcas a lápis (eu incluso). Podem ser apagadas, corrigidas e não dão margem a dúvidas. O lápis nunca vai morrer.

1:53 AM  

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