Friday, April 07, 2006

Pensamento Musical V - A Música Como Abstracção (2)

A Música Nos Pensadores Pós-Renascimento

A música volta a ocupar um lugar central nas discussões dos pensadores pós-renascimento. Recuperam-se ideias antigas, e, uma vez mais se investigam as várias facetas da prática musical em função de aspectos de religião, filosofia, e ciências da natureza.

Robert Fludd (1574-1637), alquimista inglês do século XVII, com a sua "música das esferas": todo o universo é um instrumento musical cromático; o próprio Deus é músico. Os astros estão dispostos segundo as regras da harmonia musical, as distâncias que os separam respeitam as proporções dos intervalos.

Ilustração: música das esferas. A mão é a da Divindade, que acciona o gigantesco instrumento cósmico de música, onde todas as proporções, todos os intervalos são representados.

Athanasius Kircher, jesuíta alemão do século XVII, publica um tratado, Musurgia Universalis, que se torna no principal tratado de música e acústica do século XVII. Fortemente inspirado por Pitágoras, retoma também ideias do nosso conhecido Guido de Arezzo.

Ilustração: mão musical.

Ilustração: transcrições de canto de pássaros. De notar que o papagaio faz a saudação na língua em que a aprendeu, o grego (khaire). Este processo foi retomado no século XX pelo grande compositor francês Olivier Messian, nomeadamente na sua peça Réveil des Oiseaux, de 1953.

Ilustração: Sistemas econométricos. Construção de ecos polifónicos e heterofónicos. Estes sistemas pertencem ao que Kircher chama magia fonocâmptica. Mostram que nem só a harmonia deriva da ordem natural.

Propriedades terapêuticas da música: mordidela de tarântula

Ilustração: homens afectados por mordidela de tarântula, que dançam frenéticamente ao som da tarantela, para se curarem do veneno.

Ilustração: cura pela música da mordidela de tarântula. Naquele que deve ser o primeiro tratado de terapia musical, Kircher descreve o curioso fenómeno do tarantismo, que afecta os habitantes da Apúlia, no sul de Itália, e que os obriga a dançar frenéticamente sem respeitar convenções sociais. Esta doença era imputada à mordidela de tarântula, e a única maneira de se curarem era interpretar repetidamente a melodia (tarantela), até à exaustão. Na realidade a doença parece ter sido causada por uma psicose periódica como reacção a normas sociais demasiado restritivas. Kircher explica que a cura se deve à transpiração do veneno, e que o tipo de música deve estar de acordo com a constituição da vítima. Na ilustração vê-se a melodia que serve de antídoto, a região da Apúlia e exemplares autênticos da tarântula dessa região.

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