Saturday, April 22, 2006

Wolfgang Theophilus Mozart e o Paraíso Perdido

Mozart adorava brincar com nomes. Alterava frequentemente o(s) seu(s) nome(s), assim como o de outras pessoas, na sua correspondência. Numa carta que ele enviou durante a sua viagem para Praga (onde viria a estrear Don Giovanni, em 1787) descreve uma brincadeira que envolvia os seus acompanhantes:

"(...) inventámos nomes para nós durante a viagem. Ei-los: eu sou Punkitititi. A minha mulher é Schable Pumfa. Hofer é Rozka-Pumpa. Stadler é Natchibinitschibi. O meu criado Joseph é Sagadaratà. O meu cão Gauckerl é Schamanuzky. Madame Quallenberg é Runzifunzi. Mlle Crux é Ramlo Schurimuri. Freistadtler é Gaulimauli".

As brincadeiras envolviam todos os seus nomes de baptismo (que era Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart), e consistiam em variações simples sobre o nome (De Mozartini, Mozartus, Mozarty), traduções para outras línguas (Wolfgango, Gottlieb, equivalente alemão de Theophilus), e variações mais complexas como Gnagflow Trazom, ou ainda anagramas como Romatz.

Mozart só começa a utilizar o famoso Amadeus (versão latinizada de Theophilus) a partir de 1774 numa carta dirigida à sua irmã (usava também Amadé). Maynard Solomon defende que a adopção universal de Amadeus no seu nome foi um processo póstumo provocado pelo sucesso da edição das Oeuvres Complèttes de Wolfgang Amadeus Mozart, da Breitkopf & Hartel em 1798-1806. Claro que o popular filme de Milos Forman contribuiu decisivamente para tal em tempos mais recentes.

Mas há uma forma do seu nome que aparece apenas numa fase da sua vida. Em toda a documentação oficial referente ao seu casamento (com Constanze Weber), em 1782, o nome inscrito é Wolfgang Adam Mozart. A escolha de Adam para substituir Theophilus (ou Amadeus) será engano ou uma alteração deliberada? Claro que Adam é um anagrama de Amad(é). Mas será a escolha de um nome com tantas implicações meramente acidental?

Adão (Adam) tem uma função muito específica no Jardim do Eden: é ele que dá nome aos seres vivos. Tal como Mozart, gosta de dar nomes às coisas. Vejamos Génesis 2-18:

"E o Senhor Deus disse: "Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda". Então o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu, e apresentou-os ao homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome que o homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os animais domésticos, a todas as aves do céu e a todos os animais selvagens, mas não encontrou uma auxiliar que lhe correspondesse."

Dar nome às coisas é conhecê-las. Para os antigos era frequente dar dois nomes às crianças, para que o verdadeiro permanecesse secreto para protecção de eventuais práticas de magia. Por outro lado, em rituais iniciáticos e casamentos é frequente a mudança de nome, o que aliás se mantém nos dias de hoje (veja-se o caso do casamento, ou a entronização do Papa). Freud leva a ideia mais longe. Para ele, dar nome a uma coisa é exercer domínio sobre ela.

Não é por acaso que só depois de dar nomes aos animais, ou seja, só depois de os conhecer, Adão constata que nenhum lhe corresponde. Depois da criação da Mulher, o texto diz: "Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne" (Génesis 2-24). Também é conhecida a sequência: tentados pela serpente, provam o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e são expulsos do paraíso.

O Homem, criado à imagem de Deus, reúne essas duas componentes, a divina e a terrena. Por outro lado há um aspecto que o distingue de todos os outros seres vivos (para além de ter sido o primeiro), é o único a quem Deus dá o sopro da vida (os animais, esses, assim que são criados vivem logo):

"Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente." (Génesis 2-7)

Mozart tinha, desde cedo, plena consciência do dom que possuía, e frequentemente o atribuía à generosidade de Deus.

Por outro lado, Adão quer dizer Homem em hebreu, condição que, para ele, era ainda mais importante do que qualquer estatuto de nobreza concedido pelas convenções sociais. No início do segundo acto da Flauta Mágica, Sarastro é interpelado pelo Orador que lhe diz, acerca de Tamino: "Ele é um príncipe!". E Sarastro responde: "Mais, é um Homem!"

É difícil não estabelecer um paralelo com a situação de Mozart na altura do seu casamento. Depois de entrar em rota de colisão definitiva com o seu Pai Leopold, Mozart tinha abandonado pouco tempo antes a sua Salzburgo natal, contra a vontade dele. Já vivendo em Viena volta a ser atraido pela família Weber (anos antes tinha-se enamorado de Aloysia, uma das irmãs da futura mulher), em cuja casa se instala. Quando manifesta a vontade de casar com Constanze Leopold não pode estar mais em desacordo. De forma que este não dará o seu consentimento ao matrimónio, tão insistentemente pedido, até várias semanas após o mesmo. Mozart sabia que tinha enveredado por um caminho de independência do qual não podia regressar, e assim casou sem a autorização paternal.

Tal como Adão, preferiu a liberdade e o casamento em vez da segurança da protecção paternal. Tal como Adão, casou desafiando a autoridade do seu criador, consciente das consequências desse acto.

Concordo com Solomon quando sugere que a utilização do nome Adam não é acidental. Em várias ocasiões (incluindo o casamento) Mozart se recusou a apresentar o certificado de baptismo, quando para tal bastava fazer um requerimento ao registo da Catedral de Salzburgo. A sua recusa em fazê-lo poderá estar na base de nunca ter sido aceite no Tonkunstler-Societat (Sociedade dos Músicos) negando a possibilidade de a sua família beneficiar de uma pensão após a sua morte.

Dias após o casamento, Mozart regressaria ao seu nome usual, nunca mais usando Adam na sua assinatura. No entanto, na oração funerária maçónica em sua honra descrita por Karl Hensler em 1792 (Mozart tinha-se juntado à Maçonaria em Dezembro de 1784) foi designado 3 vezes como "A***". O número de asteriscos aponta provavelmente para um nome com 4 letras, e os iniciados tinham nomes secretos.

Seria Adam o seu?

7 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Excelente ensaio.

2:58 PM  
Blogger Filipe Melo said...

Com um ensaio destes, o concerto vai correr bem de certeza.

Melo

1:22 AM  
Blogger Palavra Alada said...

parabens pelo blog. gostei em particular deste último texto.

3:30 AM  
Blogger Lord of Erewhon said...

Duvido... parece-me mais uma ovação protocolar... Nos martinistas isso era feito... significa vincar um objectivo de ascese anímica: atingir a Reintegração, ser restaurado nos poderes adâmicos anteriores à Queda, à expulsão do Éden.
A proficiência musical de Mozart denota bem a restauração de uma parte da sua alma.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Martines_de_Pasqually

Cumprimentos.

4:27 AM  
Blogger José António Barreiros said...

Boa tarde.
Permiti-me citá-lo.
Parabéns pelo seu blog.
jab

http://reciclagemdoser.blogspot.com/2007/08/amadeus-e-schiller-ainda-vala-comum.html

6:42 PM  
Blogger Gawain said...

And about names: the game Mozart played in the carriage is not unusual in Eastern Europe. Certainly all Slavs play it. I do: my motorcycle is Akbar and the bat whom i discovered in the rafters of my new house is Mietek. In referring to our friends we practically never use their proper names -- it seems rude to. Anyone with whom we have any degree of familiarity needs a nickname. The number of nicknames you carry is an index of how much you are loved. (Though this practice seems to be waning recently).

Further, it is common in Eastern Europe to translate one's name -- such as Gottlieb = Amadeus = Theophilus = Bogumil (and was even more common in the past when a large proportion of the ruling class was multilingual).

Certain uncertainty, or fluidity of names was common in Western European sources in historical times -- even Shakespeare wrote his name half a dozen different ways (though, in his case, that was a problem with spelling); but consider the profusion of names under which characters appear in Shakespeare's Histories (where a man might be called Percy, or Northumberland, or Hotspur).

In fact, one sees this situation often when a modern scholar notices that the historical figure he is studying seems to have changed his name and wonders at the significance of it without realizing, i think, that it was, under the circumstances, not so terribly significant sometimes to change one's name back in the days when there were no passports, no social security numbers, and no birth certificates. People often did that just because they decided that the new name sounded better.


In any case, one sees this often that a person calls himself one name and then begins to to call himself another later. This practice has persisted in Eastern Europe (of which Austria is more a part than any other part of Germany)until very recently - until liberation of serfs, I suppose, which is what gave everyone a legal name.

But names in Eastern Europe have been more commonly fluid (and more recently so) in Eastern Europe than in Western Europe. In Poland, for example, a nobleman's family name was pretty much anything he made it -- usually it had to do with the name of his principal seat. And thus, our family name is derived from Potok, the name of a town which was our first major landholding. The family membership was not defined by the last name but by the coat of arms one used to seal his name (eg. "Poltawa"). At various times family members called themselves Siemienski (the branch of the family based in Siemien), Tarnowski (the branch from Tarnow) and so forth (and sealed rather than signed legal documents). It only became customary (but not legally binding) to call us all by our present name when we began to function as "familia", that is a political party, in the 1700's in the parliament. The name thus became a political badge.

I am guessing that because there was such a profusion of Polish and Hungarian aristocracy in Vienna, Mozart would have been used to the fact that some people seem to have lots of names and that the names "shift".

All of this only goes to say (in a very long-winded way) that perhaps in Eastern Europe -- and therefore perhaps in Austria -- we don't seem to have the Biblical approach to names: we don't see them as magical handles and do not distinguish between true names and fancy names. God seems to have very little to do with it...

Still, I agree that it is striking that Mozart would call himself Adam in his marriage papers -- Adam is pretty far away from Amade. It is especially striking that he would only do this for this occasion.

My guess is that Adam may have been his secret name -- something that perhaps Costanze called him in private? If so, it may not be such serious Biblical business but may be related to the existence of some person -- a beloved uncle say -- by that name; or it might derive from a joke (which is how "Gawain" arose).

But another question occurs to me -- I don't know the facts, so I may be completely off the charts here. Is the name in the marriage record written in his hand? Or was it written by the officiating priest? If so, is it possible that the priest, never having heard the name Amade simply mistook it for Adam?

You see, my grandfather was born on 3 january 1901; but his certificate of birth, issued by the church, states his *date of birth* as 12 September. That's a pretty serious departure from facts. The explanation which was given to me by the family was that when he was being baptised (which is when the record of his birth was produced) everyone, including the priest, was so drunk that they got the date all wrong. You see, my grandfather was the first and long awaited child of his parents who were both by then in their 40s and his birth occasioned several weeks of partying in the whole county. (And possibly more than his baptism record got mangled in the process).

Great essay, thank you!

2:25 AM  
Blogger t.o r.k.m u.r p h.y... said...

interessante...

11:48 PM  

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